Personal essay · 08 April 2026 · written in Portuguese
Fiz 30 anos
em 2020
Fiz 30 anos em 2020 e, desde então, a minha vida tem sido uma redescoberta, quase uma segunda adolescência. Passei a semana do meu trigésimo aniversário a informar um grupo de amigos que uma outra amiga tinha perdido a luta contra o cancro. Fiz 30 anos e esse aniversário soube a uma profunda tristeza e desmotivação. Ela morreu pouco tempo depois e, logo a seguir, veio a pandemia e tudo o que de horrível esse vírus trouxe: confinamentos, isolamento e tudo o resto que, durante algum tempo, pensei que viesse a revelar o melhor dos seres humanos, a empatia.
Para alguns sim, mas para a maioria das pessoas foi o oposto; trouxe egoísmo. Inclusive para o grupo de pessoas que eu considerava família. Os meus amigos mais próximos foram sucumbindo a essa maleita. Tornaram-se egoístas, egocêntricos; começaram as mentiras e a alienação daqueles a quem, durante uma vida inteira, fechámos os olhos para o que realmente eram. A falta de amor-próprio era cada vez mais visível e, quando as intrigas, mentiras, traições começaram a surgir e aqueles de quem por tantas vezes esperei foram incapazes de esperar por mim, a minha alma explodiu. A minha reação foi: não vale mais a pena.
Em 2022, terminei algumas das minhas amizades mais próximas e isolei-me quase por completo durante mais de um ano, não foi facil. Parei de fumar, comecei a ver o nascer e o pôr do sol todos os dias, deixei de tomar café e a única droga que usava eram comestíveis, para aprender a lidar com o meu isolamento. A minha avó adoeceu, mudei-me para a minha casa de infância e tentei carregar às costas, novamente, toda a dor e mágoa da minha família. Acordar antes do sol, correr, comer, trabalhar, cuidar da casa, da mãe e da família; dormir e repetir até ao limite da exaustão.
Tornei-me cada vez mais introvertido e isolado, mas aprendi um amor-próprio de que me tinha esquecido há mais de uma década. O ateu em mim morreu e passei a adorar o que realmente existe de divino nesta vida: a natureza, o universo, o sol e a lua. No verão seguinte, aconteceu finalmente algo que nunca me tinha sucedido: apaixonei-me por um rapaz numa praia. Até ali, eu era adepto do sexo casual. Desde adolescente que a hipótese de ter alguém me era alheia. Hoje percebo que essa limitação nunca foi quem eu sou, mas sim o resultado do trauma que tanta gente Queer carrega por falta de representação, por traumas de não aceitação da família e por atos tão bárbaros como a terapia de conversão, pela qual o adolescente perdido de 17 anos que eu fui teve de passar.
Mas aconteceu o meu primeiro amor. Uma paixão de verão, simples e bonita, que me fez abrir de novo ao mundo e querer ter pessoas na minha vida. Acabou e, com o término, veio a primeira desilusão amorosa aos 33 anos. Hoje olho para trás e rio-me, mas na altura fiquei perdido porque tive de lidar aos 30 com o que a maioria lida na adolescência. No entanto, algo mudou ali. Deixei de me isolar e descobri que, dos meus antigos amigos, os que ainda lá estavam acolheram-me de braços abertos ao verem este Pedro mais aberto, sincero e frágil. De todas as amizades antigas, as que ficaram contam-se pelos dedos de uma mão e não as trocava por nada.
A minha avó melhorou, mas a doença e a estagnação levaram outras coisas. Era óbvio que a mente se estava a escapar, assim como a mobilidade, e a pessoa que me criou vai deixando aos poucos de ser quem era. Na primavera de 2024, numa noite ao pé de uma fogueira, apaixonei-me pela segunda vez. Uma garrafa de vinho e duas almas nuas na incerteza. O que me escapou nessa noite e nos meses seguintes foi que a pessoa por quem eu me estava a apaixonar não era a outra, mas sim um reflexo de mim que estava esquecido desde os meus 17 anos. Um gosto gigante pela vida, um calor tão grande que parecia ir explodir. Voltei a dançar até ao sol nascer, a sentir a música e a magia da intimidade. Não avançámos, mas ficou uma amizade com muito amor. Cá dentro, voltei a existir.
Esse verão foi o regresso definitivo. Trabalho, exposições e um novo "eu" que, sem esforço, aproximava gente nova e sincera. Pessoas com quem podia ser quem sou, algo que não conseguia fazer com quem antes achava íntimo, porque não iam aguentar o meu verdadeiro "eu" e julgavam demasiado sem se olharem ao espelho. Surgiram novos problemas de saúde e dinheiro, mas perdi o medo de voar e tive a sorte de conhecer quatro países, criando amizades improváveis. Quando o Algarve já não chegava e eu precisava urgentemente de recuperar a saúde e o que me tinha sido tirado, voltei para Lisboa. Fui recebido por uma "irmã de coração" que faz hoje anos e, dois dias depois, apareceu a terceira paixão.
Foi amor à primeira vista, um encontro repentino que mudou o meu eixo. Surgiu alguém de uma gentileza rara e um coração de ouro, que não olhou para mim a tentar medir o que poderia extrair, mas sim com o calor genuíno de quem cuida e deseja ver o outro florescer. Ele é a mente mais brilhante e perspicaz que já conheci, alguém que repara nos detalhes que o mundo ignora e que dedica o mesmo amor paciente a cuidar de uma planta ou de um animal. É um eterno e assumido aprendiz, com um vício pelo estudo que o seu percurso não deixa esconder, mas a sua vida é um oceano de tantas coisas que, por vezes, se esquece de se colocar no centro. Quero que ele aprenda a cuidar da sua própria luz com a mesma entrega com que cuida dos outros, e que se valorize na mesma medida do mundo que me tem oferecido. Ele acreditou no melhor de mim quando eu ainda curava as minhas sombras e, por isso, esta relação é hoje a minha prioridade. Amo-te tipo bués, boy. Tem sido uma aprendizagem mútua; crescer e encontrar o equilíbrio, mas agora sei que não caminho sozinho. Tenho família de sangue e de coração, e tenho ao meu lado o homem mais inteligente e maravilhoso que conheci.
Em dois anos fiz cinco exposições e muito trabalho naquilo que amo fazer. Estamos a abrir uma produtora multimédia que irá correr muito bem, com muitos planos para a minha vertente artística; fotografia e cinema em breve. Fiz a minha primeira curta-metragem e fui apresentá-la a Itália. Conheci tanta gente e estou de coração cheio. Tenho estado um pouco pessimista nos últimos meses porque eu e o meu namorado estamos a enfrentar um problema chato, em que mentiras alheias tentam estragar o que é inevitável: o nosso sucesso. Escrevo isto para me lembrar de que sou feliz, que gosto muito de quem sou e do meu percurso, que tenho amigos fantásticos e que me apaixonei pelo homem dos meus sonhos. Vai tudo correr bem, basta manter-me de alma pura. Um abraço a todos e, para variar, sinto-me a explodir de amor.
Pi :)